Neste fim de semana fomos ver o novo filme de David Fincher, o cara por trás de um dos maiores clássicos modernos (senão o clássico) do cinema, Clube da Luta - isso sem contar Se7en e Zodíaco, outros dois filmaços. Como um filme de um diretor cujo currículo está manchado apenas por O Quarto do Pânico - que de bom só tem a fotografia - nem precisava saber muito do enredo para resolver ir vê-lo, mas a trama de O Curioso Caso de Benjamin Button (adaptada de um conto de F. Scott Fitzgerald) é simples de resumir: um sujeito nasce velho - com todos os sinais de ter 80 anos de idade, mesmo sendo um bebê - e vai rejuvenescendo em vez de envelhecer. Ainda por cima o elenco tem nomes como Brad Pitt, Cate Blanchett e Tilda Swinton.
Mas com todos estes nomes, pedigree do roteiro e talento, muito para a nossa surpresa, o filme é nada mais do que medíocre.
Pare um pouco para pensar: uma das poucas coisas que todos os filmes de Fincher têm em comum é a visceralidade. Mesmo considerando que Zodíaco já tem um andamento relativamente mais calmo do que os outros citados acima, e uma trama mais "psicológica" do que visceral, ainda assim, o tema de Zodíaco é forte, e Fincher conseguiu imprimir tensão a partir desta semente. Agora olhe para o material usado em O Curioso Caso.... Não é exatamente visceral, e sim poético/contemplativo. Em outras palavras, não é a praia de Fincher. Mas todo diretor tem o direito de tentar coisas novas, de sair do previsível, certo? Foi assim que a carreira de, digamos, Stanley Kubrick se desenvolveu, e este cineasta acabou aperfeiçoando um estilo único que era visível mesmo em filmes de gêneros diversos - como horror, comédia, guerra, suspense ou drama.
E assim o filme conduz o caso, sem se dar o direito de nos surpreendender em momento algum, e muito menos de mexer no tema de qualquer forma que pudesse ser chocante, ainda que fundamentada e natural. Mais um exemplo: aos 10 anos (mais ou menos) e com aparência de 70, Benjamin Button conhece o tal amor semi-platônico - uma menina ainda mais nova e que, obviamente, aparenta ter a idade que tem, mas que mesmo assim "capta" a idade real do "menino". Como sempre acontece nessas horas e faixa etária, quem toma a iniciativa de aproximação é a garota (claro). A típica cena de beijo pré-adolescente roubado já seria previsível o suficiente - mas, é óbvio, os dois são descobertos no último segundo; afinal, seria um tanto chocante dada a aparência do "menino", não é? E não venham apontar para o conto original - deixar o beijo acontecer não seria nenhum grande desvio de rota, e traria uma camada extra de reflexão à idéia de um menino em corpo de idoso.
Repare que estamos falando de um personagem que nasce velho e rejuvenesce, que em boa parte do filme é novo mas tem um corpo de idoso. Imagine as possibilidades de interpretação para um bom ator: você tem que se expressar como uma criança de 13 anos em um corpo de 67. Mas como assim, "se expressar"? Pitt aparece com a famosa "cara de conteúdo" em todas as idades do seu personagem (e todas as fotos neste texto capturam a expressão muito bem). No começo, você até se espanta, pensando que ele está fazendo muito bem o papel de um homem mais velho - até que se dá conta de que o personagem é velho por fora, enquanto por dentro ainda tem uma mente de menino; logo, esta expressão está totalmente fora de propósito. Quando o filme se desenrola e Benjamim Button chega aos 40 anos com corpo de 40, você vê Pitt com a mesmíssima expressão novamente, e aí a ficha cai.
Mas como quase nada no filme vai além do previsível ou do medíocre, a sensação posterior é pior - é como a ressaca do dia seguinte. Talvez a sensação venha pela pretensão geral, pelo tratamento digerível demais do tema, ou pela certeza de que vai ter gente vendo mais "profundidade" neste filme do que, digamos, em um Homem-Aranha 2 - quando, na prática, se trata do mesmo tipo de olhar relativamente superficial sobre as falhas humanas e a responsabilidade; só que um tem super-herói e outro não, o que desperta associações reducionistas na cabeça das pessoas com "cara de conteúdo" (só para ficar claro: super-herói = coisa de adolescente, superficial; sem super-herói = coisa de adulto, mais madura).
Triste, muito triste. E não em um sentido "profundo".
