Nas últimas semanas, um assunto tem dado voltas na blogosfera de RPGistas e afins: porque mulheres aparentemente não são tão atraídas pelo hobby quanto homens? A coisa "evoluiu" para um meme entre mulheres RPGistas que, basicamente, pede que listem cinco fatores que afastam suas colegas do hobby. E, navegando por tudo que foi escrito sobre o tema, tive a impressão de que, no fundo, (quase) ninguém - nem mesmo as próprias mulheres, em grande parte - sequer relou no âmago da questão. Que, basicamente, é de que essa não deveria ser uma preocupação formal e sim uma questão de agir com naturalidade, independente de gênero, assim como em qualquer outra atividade.
Como praticamente tudo que diz respeito a jogos - de cartas, tabuleiro, computador ou RPG, tanto faz - em geral atrai mais homens do que mulheres (em alguns tipos mais do que outros), resolvi elaborar o tema aqui, no Diário de um Jogador, em vez de ficar perdendo tempo debatendo em blogs alheios com pessoas que inadvertidamente perpetuam a divisão em vez de realmente colaborar para que ela se abrande (em minha defesa, é lógico que só me arrisquei a isso em uma postagem onde alguém realmente tratou do assunto com um olhar bem mais pé-no-chão).
Como tenho certeza de que ainda tem muita gente que passou batido ou simplesmente foi incapaz de compreender as eloucubrações que fiz nos comentários da postagem linkada acima, vou partir para uma analogia com um assunto que é considerado ainda mais "coisa de homem" do que jogos: futebol.
Minha esposa gosta de futebol. Mesmo. Em alguns aspectos, até mais do que eu: ela tem bem menos paciência para transmissão pela TV, porque pra ela futebol mesmo se vê no estádio, enquanto eu dedico mais tempo a acompanhar os resultados e a situação dos campeonatos em si. Inclusive, conheço poucos homens que entendem de futebol tanto quanto ela. Isso posto, e se fôssemos tentar entender porque isso aconteceu com ela?
É simples: ela é filha única e seu pai jogava futebol amador em um clube paulistano quando ela nasceu. Desde pequena, o meu sogro a levava em estádios para ver jogos. Poderia não ter dado certo, mas deu: ela tomou gosto pelo jogo, e chegou até a tentar jogar na adolescência (e isso não a deixou nem um pouquinho menos feminina, muito pelo contrário). Em outras palavras, ocorreu o seguinte: em nenhum momento o meu sogro agiu em função do gênero da filha. Ele simplesmente fez o que todo pai faz: levou o rebento para ver coisas que ele, o pai, gostava de fazer, para descobrir o que a interessaria ou não, sem se preocupar com expectativas sociais do que era "coisa de menino" ou "de menina".
No papo todo sobre mulheres e RPG, cheguei a ler que certas moças que entraram no hobby com a maior naturalidade eram "exceções". Pode até ser em termos numéricos, mas o contexto demonstrou como a idéia de que "isso é coisa de menino" está arraigada inclusive entre muita gente que se diz preocupada com a minoria de mulheres nas mesas de jogo. Voltando ao exemplo do futebol, se assumirmos que o caso da minha esposa é "exceção", isto necessariamente significa que a postura de naturalidade assumida pelo meu sogro não é uma "solução" real para o "problema". As "soluções", então, se tornam pontuais ou saem do âmbito exclusivo da postura dos envolvidos, passando a ser uma questão de mexer na atividade-fonte - ou seja, modificar o futebol (ou o RPG) para que ele se torne mais "atraente para mulheres" (o que quer que isso seja; note que não há como fazer isso sem generalizar novamente o que é "coisa de menina").
Só tem um problema: até onde você pode governar a prática de uma atividade consagrada, especialmente uma com tantas possibilidades quanto o RPG? Resposta: você não governa. Não à toa, a maioria das "soluções" exprimidas eram tão pontuais e caso-a-caso quanto o que aconteceu com minha esposa e o futebol, ou quanto o caso da moça que começou a jogar RPG em grupos que já tinham mulheres e/ou homens que não a tratavam como peça rara e curiosidade estatística. Se atirou de tudo no papo, inclusive a idéia de que homens precisam tomar banho, enturmar a moça com o grupo antes de tentar pô-la pra jogar RPG, e evitar papos de RPGista na frente das "não-iniciadas". Só se esqueceram de que estas atitudes convém, e muito, a despeito do novato na mesa ser homem ou mulher - são problemas de convívio social em si, pessoais e do grupo, que precisam ser resolvidos por si mesmos, e não apenas para agradar uma categoria especial de jogador ou jogadora.
Em outras palavras, se você joga com amigos que não tomam banho e só falam de seu hobby, pouco importa se isso afasta as mulheres - seus problemas são bem maiores do que o RPG ser "coisa de menino" ou não. Eu sou homem e não ando com gente assim de forma alguma. E pode apostar que tem mulheres que não tomam banho nem raspam o suvaco (já conheci minha cota de ripongas que jogavam Vampiro).
É impressionante como as pessoas não se dão conta do quão presas elas estão às expectativas sociais mais generalizadas, até mesmo as que juram não professar. No afã de "tentar agradar", acabam segregando ainda mais. Foi por motivos parecidos que me irritei, anos atrás, com uma "campanha" de uma loja de RPG (de Curutiba, se me lembro bem) que incitava jogadores a parar de usar roupas pretas. Ou seja, para "resolver" o problema de associação estereotipada do hobby com satanismo e rituais de magia negra, buscava-se reforçar a idéia de quem usa roupa preta é satanista e arruaceiro, ao mesmo tempo tentando tapar o sol com a peneira e fingir que muitos RPGistas não gostam de coisas que geralmente aparecem em roupas pretas, como bandas de heavy metal, personagens de quadrinhos e afins. Way to go! Agora vou ter que restringir meu guarda-roupa pessoal em função de meia-dúzia que confunde Jesus com Genésio, quando tem um monte de RPGista que sobe em mesa do McDonald's para "interpretar" a transformação de seu personagem em lobisomem, com direito a uivo e tudo mais? Tenha dó.
No fundo, toda a eloucubração quanto à presença de mulheres no RPG tem o mesmo fundo de profecia auto-realizável - boa parte do que se "faz" para "reverter" a "situação" acaba contribuindo para que ela se perpetue. Muita gente se esquece de que os casos mais evidentes de RPGs populares entre as mulheres nunca vieram à tona como esforços conscientes nesse sentido: Vampiro ou Changeling não foram desenvolvidos com esse fim em particular. Embora com certeza os temas de jogos como Changeling tenham uma ressonância maior com o que a sociedade considera "coisa de menina" (algo contestável no caso da nova versão, Changeling: the Lost, mas isso é outro assunto), me parece óbvio que o resultado também foi alcançado graças à forma mais do que natural com que estes jogos tratavam o leitor - isto é, sem expectativas pré-fabricadas quanto ao seu gênero.
O que, inclusive, me lembra uma passagem do livro World of Darkness: Slashers, recém-lançado pela mesma editora, a White Wolf. O suplemento cobre assassinos seriais típicos dos slasher movies - você sabe, coisas como Freddy Krueger e Jason, assim como assassinos mais "humanos", reais ou fictícios, como Hannibal Lecter, Dexter ou o Zodíaco. Em certo quadro lateral, já bem adiantado no livro - mais precisamente, na seção de tipos de personagem - os autores chamam a atenção para o fato de que, nas obras de ficção que inspiraram o suplemento, há muito mais slashers homens do que mulheres. O texto então enumera algumas exceções e no final se posiciona mais ou menos da seguinte maneira: "sem querer entrar nas implicações de porque isso acontece nesse gênero ficcional, no que diz respeito a este livro e ao [cenário de] Mundo das Trevas, mulheres são tão capazes de cometer assassinatos em série quanto homens. Basta ver os diversos exemplos de mulheres slashers apresentados neste capítulo até agora".
E aí eu pergunto: o que tem mais chance de ser aceito com naturalidade por uma leitora levemente interessada em "ver qual é a desse tal de RPG": uma postura como a adotada em Slashers, ou uma postagem de blog que recomenda explicitamente que praticantes masculinos do hobby passem a tomar banho com mais frequência para ver se atraem novas jogadoras?
Pois é: se eu nunca tivesse jogado RPG, mesmo sendo homem, até eu teria ficado com um pé atrás após tal postagem...
Como praticamente tudo que diz respeito a jogos - de cartas, tabuleiro, computador ou RPG, tanto faz - em geral atrai mais homens do que mulheres (em alguns tipos mais do que outros), resolvi elaborar o tema aqui, no Diário de um Jogador, em vez de ficar perdendo tempo debatendo em blogs alheios com pessoas que inadvertidamente perpetuam a divisão em vez de realmente colaborar para que ela se abrande (em minha defesa, é lógico que só me arrisquei a isso em uma postagem onde alguém realmente tratou do assunto com um olhar bem mais pé-no-chão).
Como tenho certeza de que ainda tem muita gente que passou batido ou simplesmente foi incapaz de compreender as eloucubrações que fiz nos comentários da postagem linkada acima, vou partir para uma analogia com um assunto que é considerado ainda mais "coisa de homem" do que jogos: futebol.
Minha esposa gosta de futebol. Mesmo. Em alguns aspectos, até mais do que eu: ela tem bem menos paciência para transmissão pela TV, porque pra ela futebol mesmo se vê no estádio, enquanto eu dedico mais tempo a acompanhar os resultados e a situação dos campeonatos em si. Inclusive, conheço poucos homens que entendem de futebol tanto quanto ela. Isso posto, e se fôssemos tentar entender porque isso aconteceu com ela?
É simples: ela é filha única e seu pai jogava futebol amador em um clube paulistano quando ela nasceu. Desde pequena, o meu sogro a levava em estádios para ver jogos. Poderia não ter dado certo, mas deu: ela tomou gosto pelo jogo, e chegou até a tentar jogar na adolescência (e isso não a deixou nem um pouquinho menos feminina, muito pelo contrário). Em outras palavras, ocorreu o seguinte: em nenhum momento o meu sogro agiu em função do gênero da filha. Ele simplesmente fez o que todo pai faz: levou o rebento para ver coisas que ele, o pai, gostava de fazer, para descobrir o que a interessaria ou não, sem se preocupar com expectativas sociais do que era "coisa de menino" ou "de menina".
No papo todo sobre mulheres e RPG, cheguei a ler que certas moças que entraram no hobby com a maior naturalidade eram "exceções". Pode até ser em termos numéricos, mas o contexto demonstrou como a idéia de que "isso é coisa de menino" está arraigada inclusive entre muita gente que se diz preocupada com a minoria de mulheres nas mesas de jogo. Voltando ao exemplo do futebol, se assumirmos que o caso da minha esposa é "exceção", isto necessariamente significa que a postura de naturalidade assumida pelo meu sogro não é uma "solução" real para o "problema". As "soluções", então, se tornam pontuais ou saem do âmbito exclusivo da postura dos envolvidos, passando a ser uma questão de mexer na atividade-fonte - ou seja, modificar o futebol (ou o RPG) para que ele se torne mais "atraente para mulheres" (o que quer que isso seja; note que não há como fazer isso sem generalizar novamente o que é "coisa de menina").
Só tem um problema: até onde você pode governar a prática de uma atividade consagrada, especialmente uma com tantas possibilidades quanto o RPG? Resposta: você não governa. Não à toa, a maioria das "soluções" exprimidas eram tão pontuais e caso-a-caso quanto o que aconteceu com minha esposa e o futebol, ou quanto o caso da moça que começou a jogar RPG em grupos que já tinham mulheres e/ou homens que não a tratavam como peça rara e curiosidade estatística. Se atirou de tudo no papo, inclusive a idéia de que homens precisam tomar banho, enturmar a moça com o grupo antes de tentar pô-la pra jogar RPG, e evitar papos de RPGista na frente das "não-iniciadas". Só se esqueceram de que estas atitudes convém, e muito, a despeito do novato na mesa ser homem ou mulher - são problemas de convívio social em si, pessoais e do grupo, que precisam ser resolvidos por si mesmos, e não apenas para agradar uma categoria especial de jogador ou jogadora.
Em outras palavras, se você joga com amigos que não tomam banho e só falam de seu hobby, pouco importa se isso afasta as mulheres - seus problemas são bem maiores do que o RPG ser "coisa de menino" ou não. Eu sou homem e não ando com gente assim de forma alguma. E pode apostar que tem mulheres que não tomam banho nem raspam o suvaco (já conheci minha cota de ripongas que jogavam Vampiro).
É impressionante como as pessoas não se dão conta do quão presas elas estão às expectativas sociais mais generalizadas, até mesmo as que juram não professar. No afã de "tentar agradar", acabam segregando ainda mais. Foi por motivos parecidos que me irritei, anos atrás, com uma "campanha" de uma loja de RPG (de Curutiba, se me lembro bem) que incitava jogadores a parar de usar roupas pretas. Ou seja, para "resolver" o problema de associação estereotipada do hobby com satanismo e rituais de magia negra, buscava-se reforçar a idéia de quem usa roupa preta é satanista e arruaceiro, ao mesmo tempo tentando tapar o sol com a peneira e fingir que muitos RPGistas não gostam de coisas que geralmente aparecem em roupas pretas, como bandas de heavy metal, personagens de quadrinhos e afins. Way to go! Agora vou ter que restringir meu guarda-roupa pessoal em função de meia-dúzia que confunde Jesus com Genésio, quando tem um monte de RPGista que sobe em mesa do McDonald's para "interpretar" a transformação de seu personagem em lobisomem, com direito a uivo e tudo mais? Tenha dó.
No fundo, toda a eloucubração quanto à presença de mulheres no RPG tem o mesmo fundo de profecia auto-realizável - boa parte do que se "faz" para "reverter" a "situação" acaba contribuindo para que ela se perpetue. Muita gente se esquece de que os casos mais evidentes de RPGs populares entre as mulheres nunca vieram à tona como esforços conscientes nesse sentido: Vampiro ou Changeling não foram desenvolvidos com esse fim em particular. Embora com certeza os temas de jogos como Changeling tenham uma ressonância maior com o que a sociedade considera "coisa de menina" (algo contestável no caso da nova versão, Changeling: the Lost, mas isso é outro assunto), me parece óbvio que o resultado também foi alcançado graças à forma mais do que natural com que estes jogos tratavam o leitor - isto é, sem expectativas pré-fabricadas quanto ao seu gênero.
O que, inclusive, me lembra uma passagem do livro World of Darkness: Slashers, recém-lançado pela mesma editora, a White Wolf. O suplemento cobre assassinos seriais típicos dos slasher movies - você sabe, coisas como Freddy Krueger e Jason, assim como assassinos mais "humanos", reais ou fictícios, como Hannibal Lecter, Dexter ou o Zodíaco. Em certo quadro lateral, já bem adiantado no livro - mais precisamente, na seção de tipos de personagem - os autores chamam a atenção para o fato de que, nas obras de ficção que inspiraram o suplemento, há muito mais slashers homens do que mulheres. O texto então enumera algumas exceções e no final se posiciona mais ou menos da seguinte maneira: "sem querer entrar nas implicações de porque isso acontece nesse gênero ficcional, no que diz respeito a este livro e ao [cenário de] Mundo das Trevas, mulheres são tão capazes de cometer assassinatos em série quanto homens. Basta ver os diversos exemplos de mulheres slashers apresentados neste capítulo até agora".
E aí eu pergunto: o que tem mais chance de ser aceito com naturalidade por uma leitora levemente interessada em "ver qual é a desse tal de RPG": uma postura como a adotada em Slashers, ou uma postagem de blog que recomenda explicitamente que praticantes masculinos do hobby passem a tomar banho com mais frequência para ver se atraem novas jogadoras?
Pois é: se eu nunca tivesse jogado RPG, mesmo sendo homem, até eu teria ficado com um pé atrás após tal postagem...
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